Qual a importância das vacinas para médicos e alunos de Medicina?

Regina Célia de Menezes Succi, Professora na Faculdade São Leopoldo Mandic, Campinas, SP, Brasil. E-mail: succi@picture.com.br

Estudo buscou identificar a percepção da importância das vacinas e os riscos da recusa vacinal entre alunos de Medicina e médicos. Os resultados mostraram que, apesar de os dois grupos reconhecerem a importância das vacinas, alunos de Medicina e médicos não se vacinam adequadamente, apresentam dúvidas sobre o calendário vacinal, sobre a segurança das vacinas e sobre a recusa vacinal.  

Mesmo considerando o programa nacional de vacinas confiável, 17% dos estudantes de Medicina não reconhecem que as vacinas protegem contra doenças potencialmente fatais, além de 64,5% dos estudantes e 38,5% dos médicos desconhecerem as vacinas que fazem parte do calendário oficial de vacinas.

Esta foi uma das conclusões dos pesquisadores da Faculdade São Leopoldo Mandic, em Campinas (SP), que aplicaram questionários com questões abertas e fechadas a uma amostra de 92 sujeitos selecionados em uma escola privada de Medicina de Campinas (SP). A amostra foi dividida em dois grupos: grupo 1 com 53 estudantes de Medicina (do 1º ao 4º ano) e grupo 2 com 39 médicos de diferentes especialidades, docentes ou não. O estudo foi realizado no ano de 2016 e publicado na Revista Paulista de Pediatria de março de 2019.

Os dados coletados a partir do questionário aplicado na amostra foram tabulados no programa Excel e analisados estatisticamente. Todos os estudantes e 94,9% dos médicos referiram possuir carteira de vacinas e a maioria disse lembrar qual foi a última vacina recebida. Entretanto, apesar de pertencerem ao grupo considerado de risco para influenza, 15,4% dos médicos e 47,2% dos estudantes não receberam a vacina em 2015 por “falta de interesse” e “temor de eventos adversos”.

Todos os médicos e 83% dos estudantes concordaram com a afirmativa que “as vacinas protegem contra doenças potencialmente fatais” e a maioria afirmou que “os benefícios das vacinas são muito mais importantes que os possíveis eventos adversos”. O Programa Nacional de Imunizações no Brasil (PNI) foi considerado eficiente e confiável por 88,7% dos estudantes e 92,3% dos médicos. No entanto, a maioria dos estudantes e 38,5% dos médicos desconhece o número de doenças infecciosas que podem ser evitadas com as vacinas do PNI.

O estudo demonstrou também que, embora a maioria de médicos e estudantes reconheça que os indivíduos vacinados podem proteger outras pessoas de adquirirem doenças infecciosas, 34% dos alunos não reconhecem a importância da proteção de rebanho no controle das doenças infecciosas.

Os pesquisadores admitem que o estudo tem, no tamanho da amostra, uma importante limitação e, por essa razão, não podem generalizar os achados. Mas eles concluíram que alunos de Medicina e médicos apresentam dúvidas sobre o calendário vacinal, segurança das vacinas, proteção de rebanho e aspectos éticos da recusa vacinal – dúvidas que podem conduzir ao despreparo para enfrentar a questão da recusa vacinal, crescente em todo o mundo. O sucesso da cobertura vacinal tem, entre seus determinantes, o correto e adequado conhecimento do profissional de saúde (e do estudante de Medicina) sobre a importância das vacinas (THEODORIDOU, 2014).

Considerando-se que a imunização adequada desses profissionais é reconhecida como a melhor forma de proteção para o risco infeccioso, (EDWARDS et al., 2016) a vacinação desse grupo e suas crenças também precisam ser avaliadas no contexto da recusa vacinal. Os pesquisadores afirmam que conhecer as possíveis falhas nos conceitos dessa população será útil na programação de novos conteúdos a serem introduzidos na programação de ensino de imunizações e prevenção de doenças infecciosas. E também que enfatizar no currículo das escolas de Medicina as discussões sobre a vacinação e a importância da vacinação do profissional de saúde pode capacitar o futuro médico para o processo decisório sobre vacinação, abordando a própria vacinação e a recusa vacinal de forma ética, mantendo o sucesso obtido com os programas de vacinação.

EDWARDS, K. M. Countering Vaccine Hesitancy. Pediatrics., v. 138, n. 3, pii, e20162146, 2016.e-ISSN: ISSN: 1098-4275 [reviewed 3 February 2019]. DOI: 10.1542/peds.2016-2146. Avaliable from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/27573088
THEODORIDOU, M. Professional and ethical responsibilities of health-care workers in regard to vaccinations. Vaccine, v. 32, n. 38, p. 4866-4868, 2014. ISSN: 0264-410X [reviewed 3 February 2019]. DOI: 10.1016/j.vaccine.2014.05.068. Avaliable from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24951862

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